Horas perdidas nem sempre são desperdício. Pelo menos era nisso que acreditava o velho relojoeiro da pequena galeria escondida entre os prédios de uma grande cidade. Quem passava pela loja ouvia o suave tic-tac das engrenagens e sentia uma estranha impressão: não parecia que os relógios marcavam as horas. Parecia que sussurravam segredos. O idoso não consertava relógios para que voltassem a indicar o tempo comum. Sua verdadeira ocupação era outra, muito mais misteriosa. Ele colecionava minutos esquecidos . Tudo começou no dia em que descobriu algo que nenhum livro ousava afirmar: o tempo não era rígido . Era maleável, capaz de se dobrar, escapar e até se perder. Desde então, passou a notar um fenômeno invisível aos olhos de todos. Quando alguém permanecia horas preso a lembranças antigas, afogado em saudades ou vagando por pensamentos sem destino, aquelas horas não desapareciam. Desprendiam-se silenciosamente do grande relógio do mundo e passavam a flutuar pela realidade, ...
O Pássaro da Catedral é um dos contos mais impactantes presentes logo no segundo capítulo de Os Contos da Fada Zuculina . A narrativa estabelece um inquietante diálogo entre passado e presente, revelando como as feridas da desigualdade social atravessam o tempo e permanecem abertas. A fada, tomada por espanto e indignação, observava uma cena que parecia desafiar qualquer ideia de justiça: homens, mulheres e crianças em situação de rua tentavam encontrar abrigo sobre pedaços de papelão espalhados pelas calçadas frias da metrópole. A poucos metros dali, outros desfrutavam do conforto de camas macias, envoltos em lençóis perfumados e protegidos de qualquer sofrimento. Diante desse contraste brutal, a fada compreendeu que o progresso das cidades nem sempre significava o progresso da humanidade, pois a riqueza e a miséria continuavam convivendo lado a lado, como sombras inseparáveis de uma mesma realidade. A noite vestia-se de sombras profundas. Um eclipse total cobria o céu c...